A centralidade das distribuições Linux na sustentação de servidores corporativos, bancos de dados e infraestruturas em nuvem torna a perícia nesses ambientes um elemento crítico na resposta a incidentes de segurança da informação. Contudo, a condução de exames periciais em sistemas operacionalmente baseados em Linux apresenta desafios metodológicos específicos. Durante um comprometimento de sistema, atacantes que obtêm privilégios elevados (root) frequentemente tentam ocultar suas ações desativando o registro de comandos, limpando o histórico de sessão ou manipulando variáveis de ambiente. A preservação da prova digital e a reconstrução fidedigna da cena do crime cibernético exigem a aplicação de técnicas de análise forense de disco e extração de artefatos de memória volátil (RAM Forensics).
O primeiro vetor de análise em sistemas de arquivos Linux reside na extração dos arquivos de histórico de shell, como .bash_history ou .zsh_history, localizados nos diretórios home dos usuários. No entanto, diante da possibilidade de adulteração ou redirecionamento do arquivo por meio de comandos como unset HISTFILE ou kill -9 $$, o perito judicial deve buscar redundância analítica no subsistema de auditoria do kernel (auditd). O auditd registra chamadas de sistema (syscalls), execuções de binários (execve) e alterações em arquivos críticos com registro de timestamps confiáveis, impedindo que modificações no espaço de usuário apaguem os vestígios da atividade maliciosa.
Adicionalmente, quando os registros em disco foram parcialmente destruídos, a extração da memória RAM via módulos de kernel periciais e a análise com ferramentas como o framework Volatility tornam-se indispensáveis. A inspeção da memória volátil permite recuperar estruturas de processos terminados (task_struct), extrair payloads e scripts que rodavam apenas em memória (fileless malware) e analisar soquetes de rede associados a canais de comando e controle (C2). A consolidação técnica desses vestígios, aliada à rigorosa documentação da cadeia de custódia (conforme as diretrizes da ISO/IEC 27037), garante a higidez científica e a validade jurídica do Laudo Pericial em litígios corporativos e judiciais.
